Lilac

Não tens frio?

Posso-me sentar aqui?

Isto é bonito. Calmo. Costumas vir cá muitas vezes?

Não te incomoda a chuva?

Eu não mordo, sabes? Podes falar comigo.

Ou não - pronto, isso também funciona - falo eu então, não me vais ver a fugir de um monólogo.

Eu sei porque é que estás aqui, assim. Desculpa. A culpa é minha. Eu devia ter falado contigo há mais tempo. Devia ter percebido antes. Mesmo depois de perceber - ou, enfim, de me obrigares a fazê-lo - as coisas podiam ter sido diferentes. Eu podia ter sido diferente. Talvez não estivesses aqui agora, assim, com alguém à tua procura para fazer perguntas a que não queres responder, para dizer coisas que não queres ouvir.

Parte de mim acreditava que não faria diferença. Fosse o que fosse, nada iria mudar o que nós somos, de nada iria valer o esforço. O abismo que existia entre nós era assustador, e mais o era ainda a forma como este alargava com o correr dos dias. Parecia de chumbo cada passo que dava em direcção ao desconhecido.

É óbvio que não posso inventar o mundo de volta. Também não o posso virar do avesso para que tudo encaixe no sítio certo. Ainda assim, eu estou aqui. O resto vale o que vale, e sei que talvez não seja muito, mas pelo menos hoje, e mais do que nunca, eu estou aqui. E isso é mais do eu que posso dizer acerca das outras vezes.

Bem, em retrospectiva, nem foi um monólogo assim tão grande. Foi um monólogo-zito, vá.

Entretanto a chuva foi abrandando.

Já é hora.

Queres voltar?

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