(sem título)

Estás contente? Era isto que querias? Era esta a pessoa que querias ser? Quando te vês ao espelho, ainda a reconheces? Os traços estão lá, és parecido, és tão parecido, mas, não sei, não sei o que te aconteceu. Não sei o que te aconteceu...

É isto? Um ponto final, agora é assim, as coisas são o que são e pronto. Já devias saber, já devias saber há tanto tempo. Já te tinham avisado, não já? Agora aguenta. Segue em frente. Perdeste o que perdeste, e o prémio de consolação não és senão tu.

Parabéns?

Não, que se foda isto. Não quero nada disto. Não é para isto que estou aqui. Quero voltar, quero ser quem sou, deixa-te de merdas de uma vez por todas e deixa-me ser quem sou. É amanhã, é sempre amanhã, sempre amanhã, as coisas são sempre melhores amanhã, as coisas fazem sempre mais sentido amanhã, e que se dane o amanhã, não quero saber do amanhã, eu quero o hoje, o já, o ontem e todo o outro tempo que me roubaste de volta.

Se não faz sentido agora, que não faça, não interessa, não quero que faça sentido, as coisas são tão melhores quando não fazem sentido, quando são por ser, apenas, sem motivação, sem uma lógica parva por trás que se acha "fazer sentido". Se foi isso me trouxe até aqui hoje, passo bem sem fazer qualquer sentido enquanto houver ar nos pulmões e alento na alma, se é que o há ainda, se é que ainda não mo roubaste.

Aaaaaah, que parvoíce. Que frustração enorme. Estou a tremer de tão parvo que isto é. Foda-se. Chega. Chega, chega, chega. Porque é que as coisas não podem ser o que são? Sem entrelinhas. Sem mensagens subliminares. Sem "mas" nem meio "mas". Porque é que não podemos ser, simplesmente?

Já estou velho para isto. Não quero as tuas desculpas. Não as aceito. N-uuuuu-nca as vou aceitar. Não tenho espaço do meu lado com as que mandaste para trás, haja paciência.

Aaaaaah, eu não aguento. Tantos pontos finais fartam-me, e eu já estou farto demais, de uma ponta à outra da reticência. Quero o mundo de volta. Quero-o virar do avesso, vezes em conta, até não saber o que o avesso é. Até encontrar o eu que eu não sou, e que não faça pingo de sentido. Até esse momento despontar no infinito, no expoente máximo da parvoíce.

E — até lá, entretanto — acende lá o raio das luzes.

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